(E)m estado líquido #30

Flui em cascata acariciando a pele, arrepiando-a, tornando-a susceptível a cada toque, a cada beijo deixado pela ponta de uns dedos ensinados e subjugados às curvas do corpo que se lhes oferece. Curvas que conhece de cor, que admira orgulhosamente sempre que despida se mostra disponível para si, aberta e pronta para o receber. Embaciam-se-lhe os olhos, deixam de ver, cegos de prazer, entregues ao calor que húmido e sarcasticamente refrescante lhes escorre do corpo como que antevendo fugidias lágrimas de paixão.

(E)m estado líquido #38

 "As moléculas de um material no estado líquido possuem mais energia do que as moléculas do mesmo material em estado sólido, a uma mesma pressão. Esta maior energia traduz-se em maior liberdade de movimento, que é o que permite ao líquido adaptar a sua forma à forma do recipiente que o contém."

É na intensidade de um querer que se sente a mudança do corpo. Estagnado, em repouso, voluntariamente colocado em pausa, rapidamente se transforma num turbilhão humedecido de sensações. Não precisa de muito. O desejo e a vontade são as premissas. A entrega a conclusão. E o corpo manifesta-se assim, jorrando sinais de desejo em cascatas líquidas de prazer, soltando o suco da vontade, escorregando languidamente de um corpo para o outro numa fusão de sabores únicos, profusos, imprescindíveis ao alcançar do orgasmo mais sublime, ao alcançar da união mais perfeita e do suspiro mais furioso.

(E)m estado líquido (24)

Depositas em mim o culminar do prazer que nos oferecemos. Regozijo ao fitar-te nos olhos e sentir ainda a chama do desejo, agora rendida, desapossada da intensidade e fulgor dos instantes que a precederam. Sinto-te em cada poro, absorvo o teu sabor quente e escorregadio na certeza de que em nós se manifestou o mais puro dos momentos. Líquido, lânguido, explosivo.  

(E)m estado líquido #35

Desde jovem que, explorando o próprio corpo, antevendo o que ouvia dizer não ser para a sua idade, descobriu que tocando-se de uma ou outra forma, conseguia fazê-los acontecer. Não identificou logo a sensação vivida com a palavra orgasmo, apenas gostava daqueles pequenos espasmos de prazer que procurava sempre que podia na clandestinidade do seu mundo. E gostava de aprimorar o que já considerava ser uma técnica infalível para os criar de dentro para fora do seu corpo. De apreciadora, cedo se tornou amante dos prazeres da carne. Descobriu que havia mais para além da solidão do trabalho desenvolvido pelas suas mãos e viu nos outros a possibilidade de exponenciar o que vivia entre as paredes do seu quarto. Costumava apelidar-se de coleccionadora de orgasmos. Coleccionava sabores, experiências, paixões. Guardava nos recantos da memória, cheiros, gestos, momentos, explosões. E, muitas vezes, a provocação da mente era tal, que dava por si eléctrica, insaciável. Escorria amiúde da vontade de ser consumida. Procurava saciar-se sempre que o ímpeto lhe surgia da volúpia das suas entranhas. Não se envergonhava. Ao invés, regozijava na certeza de se saber, de se conhecer. Coleccionava orgasmos como quem colecciona sorrisos, como quem procura a felicidade numa busca que sabia não cessar, apenas a envolvia na liquidez de querer mais e melhor. Porque de cada vez que se saciava, de cada vez que o espasmo se consumava, sentia que ainda não era ali que findaria.

(E)m estado líquido #26

Gota a gota, é em ti que mato a sede. É em ti que expurgo a secura dos dias, a aridez do corpo. Um corpo desabitado, ermo e solitário que apenas ganha vida quando tu habitas nele e nele te fazes seu. 
Gota a gota, é de ti que bebo a plenitude. É em ti que vertiginosamente e numa cascata de emoções, reponho a energia que me foge quando aqui não estás.
Gota a gota, é em ti que provo o mais puro dos sabores. O sabor a ti, o sabor a instinto, o sabor que mal me toca na ponta da língua me recorda o que tão bem sei.
Gota a gota, é de ti que absorvo em cada veia, em cada textura, em cada lamber, um pedaço de vida, um raiar de prazer.

(E)m estado líquido #25

Os nossos corpos tocam-se por breves instantes e acontece. Não há forma de escapar ao que o arrepio das nossas peles em contacto uma com a outra origina. Como o destino, irrefutável e (i)manobrável, o estado líquido instala-se permanentemente em nós. Embaraçados mas deliciados por saber que o desejo que nutrimos um pelo outro se materializa assim, em provas dadas, em sinais óbvios de um querer insaciável, num preparar dos corpos para a fusão almejada, ansiada, profundamente desesperada.

"Agora estamos mesmo misturados um no outro"

(E)m estado líquido #21

I wanna do it, again
Do it again

I am freak

I repeat
I am a freak
I repeat...

If you let me lick the skin of your fingers

I'll try to lick your skin 'till your bones
How far are you
Willing to go?

(Silence Four)

(E)m estado líquido #34


Há lágrimas rebeldes. Lágrimas que nos escusamos a mostrar mas que teimam em nos escorrer rosto abaixo, traçando um trilho, um rio sem margens. Há lágrimas rebeldes. Lágrimas que provocamos porque sentimos vontade de as soltar, porque contê-las é subjugar a vontade à razão. Há lágrimas rebeldes. Lágrimas cuja origem se encontra na essência da nossa libido e, quase sem querer, quase por querer, deixamos nos invada e se solte de dentro para fora. Há lágrimas rebeldes. Lágrimas que se desmancham e nos desmancham, nos desconcertam. E escorrem. E aproveitam-se. E possuem-se. Um resquício do prazer que ainda queremos sentir, que ainda querermos fazer sentir. E degustamos cada gota, lambendo como quem lambe um ferida, saboreando, deliciados. Bebendo-a, tornando-a nossa, almejando a que uma pequena lágrima se funda em nós e dê lugar a uma torrente de delicados prazeres, de explosivos gemeres, de torneados gestos de desejo.

(E)m estado líquido #20

I tell'ya what I'm gonna do
I'm gonna pick her up
I'm gonna get her drunk
I'm gonna make her cry
I'm gonna get her high
I'm gonna make her laugh
I'm gonna make her...shh
woman, woman, woman

She gotta knows she's it

cause I'm gonna touch her
all over her body
gonna touch her
all over her body

(Violent femmes)

(E)m estado líquido #40

Dava-lhe tudo o que tinha em si, o melhor e o pior, fundido num orgasmo só, num momento perene de explícito prazer. Reunia as suas forças, armazenava-as, guardava-as religiosamente para ela. Mantinha-se embriagado da vontade mas fechava as comportas para depois lhe oferecer uma descarga capaz de a afogar de prazer. Guardava-se para nela se depositar, para nela se espraiar, cuspindo o excesso que a dor do desejo lhe causava. Despedia-se das torrentes tempestuosas do seu íntimo sem cuidar onde iria parar, sem cuidar onde a iria atingir. Para ela não importava. Na verdade, atingia-a sempre no local mais inóspito do seu corpo, o coração.

(E)m estado líquido #17

Photobucket
Existem momentos a sós capazes de levar uma mulher à loucura!

(E)m estado líquido #18

Vem daí vamos dançar
Essa rumba já esquecida
Traz champanhe para regar
Um pouco da nossa vida

Traz um vestido comprido
Com um decote bem fundo
Põe o teu ouro fingido
E vamos mostrar ao mundo

Chim-chim
Doce vertigem de champanhe

(Rui Veloso)

(E)m estado líquido #41

"És tão puta. Olha para ti, já estás toda molhada outra vez!"

Enterrou os dedos nela para tão só constatar o que já sabia. Moldou-se à sua entrada perscrutando a sua textura macia e cavernosa, sentindo o líquido indiciário que dela profusamente brotava. Aberta, funda, pronta, definitivamente consumida pelo desejo de ser preenchida. Afundou o corpo nela que o recebeu húmida, sem obstáculos, sem vírgulas, sem pontos finais. Molhou-se nela, sujou-se dela, lambeu-a como quem enxuga uma lágrima. Molhou-a de si, veio-se nela, fundiu-se com ela, misturou a sua essência na essência que ela lhe oferecia. Selaram-se um no outro com o doce lacre do prazer.

(E)m estado líquido #45

Enquanto a penetrava, lambia-lhe o que escorria desenfreadamente, o suco do prazer, a dádiva do sabor e do desejo. Enquanto a preenchia e lhe entrava corpo adentro, massajava-lhe avidamente o clitóris, intumescido, crescido, proeminente, exacerbado pelo estímulo, pelas carícias, pela língua que degustava a mistura de sabores e de sensações. Enquanto lhe atropelava as entranhas, em investidas certeiras e ritmadas, beijava-lhe os lábios, afastados, que a deixavam desprotegida, visível, aberta para ser explorada, posicionada para ser descoberta em todo o seu esplendor. Enquanto lhe assomava o interior, quente e húmido, roçando-se e deslizando sem parar, provava-lhe o sexo, complementando o delírio, aproveitando tudo o que ela tinha para oferecer, guloso e altruísta, dando e recebendo, comungando e partilhando. E no derradeiro final, receberia com agrado o orgasmo de ambos, que seria também o seu.